Jesus não prometeu riquezas, nem mesmo foi este o povo com quem conviveu diariamente. Jesus não curou a todos os doentes pelos quais passou. E em momento algum prometeu saúde física. E em momento algum prometeu uma alma constantemente saudável.Minha tendência é sempre buscar o melhor para mim, para minha família, para aqueles que amo em primeira instância. Acho que isto é praticamente um instinto, pelo que observo a minha volta não sou a única a agir assim.
Quando nos tornamos verdadeiros cristãos, acho que para maioria de nós o principal atrativo é a leveza de alma que sentimos. O primeiro contato real que temos com Jesus Cristo tem o efeito da fluoxetina (medicamento utilizado no tratamento de depressão em estado inicial). Nos sentimos leves, nada é capaz de abalar nossa serenidade. Mas com o passar do tempo o efeito passa. No caso da depressão se não buscarmos lidar com a causa e tratarmos das questões que nos afligem de perto, encarando-as pelo nome, o resultado passa a ser desastroso. Aquela primeira dosagem da fluoxetina passa a não suficiente, precisamos aumentar a dose, depois precisamos mexer mais uma vez nos miligramas, mais adiante um pouco precisamos mudar a droga, alterar o medicamento injetor de ânimo. Enquanto não encararmos os fatos e não buscarmos ajuda especializada além da medicina medicamentosa, a tendência é a de nos mantermos vivos ao invés de viver. Muitas vezes optamos por ser meros sobreviventes quando temos a oportunidade de sermos Vivos, cheios de vida.
Já na linguagem cristã, quando percebemos o fim desta leveza inicial, costumamos dizer que acabou o primeiro amor. A diferença do que acontece na depressão é que não existe um outro Jesus para trocarmos quando tivermos esgotado com as doses receitadas. Mas e então o que fazer?
Muitas vezes entramos numa busca intensa de voltar ao primeiro amor e tentamos nos reconverter e por vezes sentimos pequenos lampejos da sensação inicial, mas são apenas lampejos que logo se vão. Novamente pergunto, o que fazer estão?
Há algo que demoramos a descobrir, conhecemos a Jesus, nos entregamos ao cristianismo e continuamos buscando dentro desta nova vida aquilo que sempre estivemos buscando: O que é melhor para mim.
Vamos a igreja, freqüentamos todos os cultos, congressos, estudamos a bíblia, nos formamos em teologia, oramos com sinceridade. Mas são ínfimos os momentos em que não somos nós mesmos o foco de tudo isto.
Em momento nenhum na vida de Jesus percebemos Ele se colocando em foco isolado, o foco de Jesus era cumprir a vontade, não sua, mas de seu Pai. No momento de maior tensão de sua vida terrena Ele verbalizou: “Se possível, passe de mim este cálice; mas seja feita a Tua vontade.”
Quando optamos por sermos cristãos, quando decidimos ser missionários, pastores, são os momentos de lampejo em que nos lembramos que não é a minha vontade, afinal o que Jesus ensina é que quem quiser segui-lo, deve morrer para si mesmo, tomar a cruz e seguir. Mas se há um povo capaz de viver sob “milagres” constantes somos justamente nós, ao invés de morrermos a cada novo dia somos muito mais capazes de ressuscitar a cada novo dia, ressuscitamos a nossa vontade e tentamos conciliá-la com a de Deus.Nos decepcionamos com a Igreja, nos decepcionamos com o Cristianismo, nos decepcionamos com Deus. Quando tudo o que precisamos é nos decepcionarmos conosco mesmo e esta decepção deve ser profunda ao ponto de desejarmos morrer. É neste ponto quando decidimos morrer que Cristo pode novamente viver plenamente em nós, não obedecendo as nossas vontades mas levando-nos a obedecer a Sua. Enquanto permanecemos conscientes disto, permanecemos com aquela primeira sensação, de uma alma leve, do primeiro e Verdadeiro Amor.

